A Associação dos Magistrados do Maranhão (AMMA), por meio da Diretoria AMMA Mulheres, realizou neste domingo (8) uma ação especial em alusão ao Dia Internacional da Mulher, voltada ao acolhimento e fortalecimento da autoestima de mulheres vítimas de violência doméstica.

A iniciativa integrou o projeto Elas – Empoderamento, Liberdade, Autoestima e Solidariedade, promovido em parceria com o Salão Lídia Bastos, o Tribunal de Justiça do Maranhão (TJMA), por meio da CEMULHER e da Diretoria de Segurança Institucional (DSI), e a Casa da Mulher Brasileira.

A programação reuniu doze mulheres em situação de violência doméstica, além de profissionais que atuam na rede de apoio e proteção, em uma manhã de cuidado, acolhimento e valorização pessoal no Salão Lídia Bastos, em São Luís.

As participantes foram recebidas com um café da manhã oferecido pela AMMA e tiveram acesso a diversos serviços de cuidado e beleza, como corte de cabelo, hidratação, escova, manicure e maquiagem. A proposta foi proporcionar um momento de ressignificação das marcas deixadas pela violência, promovendo o resgate da autoimagem, o fortalecimento da autoestima e o reconhecimento da importância da rede de apoio às mulheres.

Participaram da ação mulheres que se encontram acolhidas em alojamentos e abrigos da Casa da Mulher Brasileira, após sofrerem ameaças e agressões de companheiros ou ex-companheiros.

Histórias de superação

Entre as participantes estava K., de 33 anos, mãe de quatro filhos. Há mais de dez anos ela vive sob ameaças e perseguições do pai de suas duas filhas mais novas, com quem nunca chegou a morar ou manter relacionamento formal.

Segundo ela, a situação se agravou no fim do ano passado. Na madrugada do dia 25 de dezembro, o agressor invadiu sua casa, a agrediu e a ameaçou com uma faca. Dias depois, na virada do ano, voltou a invadir a residência, quebrou objetos e fez novas ameaças de morte.

“Deus me livrou da morte. Essa violência não é de hoje. Ele é envolvido com crimes. Só não me matou porque minha filha de nove anos se abraçou comigo e impediu”, relatou.

K. conseguiu fugir e buscar ajuda na Casa da Mulher Brasileira. “Consegui ir de Uber até lá. Fiquei 29 dias acolhida na Casa de Passagem e recebi todo o apoio”, contou.

No dia 5 de fevereiro, o agressor foi preso. Atualmente, ela recebe o benefício do Aluguel Social e conseguiu alugar um pequeno imóvel em outro bairro para recomeçar a vida com os filhos, de 12, 10, 9 e 3 anos.

“Ele dizia que, se eu não fosse dele, não seria de mais ninguém. Chegou a ameaçar minha filha de três anos. Hoje eu e minhas filhas fazemos tratamento para superar tudo isso”, afirmou.

Outra história é a de H., de 21 anos, mãe de duas crianças – uma menina de dois anos e um bebê de dois meses. Grávida do seu segundo filho, passou a sofrer agressões físicas e psicológicas frequentes. Em uma das ocasiões, chegou a desmaiar durante um espancamento e precisou ser levada ao hospital.

“Eu tinha muito medo. As agressões eram constantes e eu era ameaçada de morte”, contou.

Em fevereiro deste ano, após mais um episódio de violência, H. encontrou uma forma de pedir ajuda. Procurou o hospital municipal alegando que o filho estava doente, mas na verdade buscava um local seguro para denunciar o que estava acontecendo.

A partir do atendimento, a Prefeitura do município providenciou o encaminhamento dela e das crianças para a Casa da Mulher Brasileira, em São Luís, onde permanece acolhida.

Agora, o objetivo é reconstruir a vida. “Quero voltar para Santa Catarina, para perto da minha família, estudar e trabalhar. Quero dar um futuro melhor para meus filhos”, disse.

Fortalecimento da rede de apoio

A diretora da Casa da Mulher Brasileira, Susan Lucena, destacou que ações como essa ajudam no processo de reconstrução da autoestima das mulheres que romperam ciclos de violência.

“Muitas mulheres, quando vivem em relacionamentos abusivos, têm o seu brilho apagado. Elas se apequenam para caber naquele relacionamento. Aqui estamos com mulheres que romperam esse ciclo e estão na fase de reconstrução. Com o apoio do Estado e da rede de proteção, elas conseguem retomar o controle de suas próprias vidas”, afirmou.

Segundo ela, a parceria com a AMMA reforça a importância da solidariedade entre mulheres. “É um exemplo de mulheres acolhendo mulheres”, ressaltou.

A diretoria AMMA Mulheres, Karine Castro, destacou que a iniciativa integra o compromisso da associação em promover ações que fortaleçam os direitos das mulheres e contribuam para a prevenção da violência de gênero.

“O evento proporcionado pela Diretoria AMMA Mulheres veio para trazer ações afirmativas do direito feminino não apenas para magistradas, mas para mulheres em geral. Essa iniciativa concretiza o objetivo da diretoria, que é também atuar na prevenção da violência e reafirmar os direitos das mulheres”, explicou.

A ouvidora da Mulher da CEMULHER do Tribunal de Justiça, Daniele Bittencourt Ataíde Ribeiro, também ressaltou a importância da informação e da orientação para que mulheres consigam romper o ciclo da violência.

“A violência psicológica muitas vezes destrói a autoestima da mulher e causa danos emocionais profundos. Por isso, ações de fortalecimento da autoestima são fundamentais. Muitas mulheres precisam de informações básicas sobre como pedir uma medida protetiva ou como agir diante da violência”, afirmou.

Ela destacou ainda que a Ouvidoria da Mulher funciona como um canal especializado para orientar mulheres em situação de violência de gênero, oferecendo informações sobre direitos, medidas protetivas e encaminhamento de demandas.

O canal pode ser acessado pelo telefone (98) 98506-8033.

Solidariedade

A cabeleireira Lídia Bastos, proprietária do salão que sediou a ação, explicou que há 13 anos dedica o dia 8 de março exclusivamente ao atendimento gratuito de mulheres em situação de vulnerabilidade.

Segundo ela, a iniciativa surgiu a partir de uma promessa pessoal.

“Depois que meu pai faleceu, nossa vida ficou muito difícil. Pedi a Deus que me desse uma profissão. Quando consegui me tornar cabeleireira e abrir meu próprio salão, fiz a promessa de dedicar todo dia 8 de março ao atendimento de mulheres que não podem pagar por serviços de beleza”, contou.

Desde então, independentemente do dia da semana em que a data ocorre, o salão suspende os atendimentos comerciais e abre as portas apenas para mulheres em situação de vulnerabilidade, reforçando o compromisso de solidariedade e apoio às mulheres.