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13/11/2015 12h07
Vozes da Seca – Ainda atualizada

Na primeira metade da década de 50, do século passado, quando o Brasil era governado por Getúlio Dorneles Vargas, agora na fase democrática, porque havia chegado ao poder mediante eleição. Diferente, portanto, do longo período ditatorial em que governou o País. O então Presidente, no afã de fazer expandir a sua filosofia populista, que tivera um início bem sucedido, com a implantação de normas trabalhistas, copiados dos países do leste europeu, buscou introduzir no âmbito rural brasileiro, com destaque para o sertão nordestino, um novo modelo de esforço governamental, representado por “favores” para amenizar os efeitos da seca, que tanto afligia a nobre e brava população daquela importante parte do território nacional.
 
No mesmo período, mais precisamente no ano de 1953, o cidadão norte-rio-grandense, de nome Zé Dantas, que além de médico, desfrutava do privilégio de possuir uma excelente veia poética, pela qual expressava, em versos musicados, os motivos e as belezas da região que tivera como berço natal. Da sua gigantesca obra musical destacam-se: Cintura Fina; Riacho do Navio; A volta da Asa Branca e, de forma muito especial, “Vozes da Seca”, que traduzia uma forte mensagem de repúdio à forma de tratamento dispensado pelo governo federal para aliviar os augúrios da população do sertão nordestino. Tal represália tornou-se bastante explícita em uma das estrofes da canção “Vozes da Seca”, de teor seguinte:
 
“Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”
 
A bela mensagem do poeta potiguar tornou-se divulgada, apenas no meio artístico, notadamente nos bares da capital pernambucana, onde Zé Dantas teve a felicidade de travar conhecimento com aquele que viria a se tornar o Rei do Baião. Refiro-me, naturalmente, ao famoso sanfoneiro e cantor Luiz Gonzaga. Este ao gravar aquele poema fez do mesmo um dos maiores sucessos do seu repertório musical. No entanto, a denúncia nele contida, na época, teve pouca repercussão, talvez em decorrência da falta de uma maior divulgação, por parte da então insipiente mídia brasileira.
 
Passaram-se os tempos e, depois de decorrido quase meio século, o modelo populista de fazer política como Getúlio Vargas, voltaria a ser utilizado, com algumas adaptações, a saber: Na capital paulista, um cidadão de origem nordestina, pertencente à classe operária, com muita habilidade, infiltrou-se no meio sindical, chegando a se tornar o seu líder máximo. Nessa condição, arregimentando colaboradores e adeptos, fundou uma nova sigla partidária, sob a denominação de Partido dos Trabalhadores que, logo passou a focar a possibilidade de alcançar o poder maior do País. Em razão dos fundamentos básicos do PT, de que seus princípios jamais se afastariam das normas de natureza ética e moral e ainda, pelo forte descredito da população, em relação aos militantes dos velhos partidos políticos, um grande número de boas pessoas e outras nem tanto, foram atraídas para as fileiras do novel Partido.
 
Três foram às tentativas para chegar ao poder, o que somente viera a acontecer na quarta disputa, em 2002. Agora como legítimo detentor do comando da República, o Presidente Lula passou a articular a perpetuidade da sigla partidária, da qual fora um dos fundadores. Para tanto, foi vislumbrado que o programa de “bolsas”, nascido no governo antecedente, se bem aplicado para alcançar o universo de um terço da população brasileira, teria uma excelente conotação de distribuição de renda, com forte repercussão em todo País e até no exterior. Também renderia milhões de votos. No entanto, foi esquecido o que ensinara Zé Dantas, através de Vozes da Seca, de que um homem saldável não precisa de “esmola” e sim dos meios para poder ganhar o sustento da família com o suor do próprio rosto. Aliás, este ensinamento tem correlação com regras do livro sagrado.
 
Com toda certeza, os sucessivos governantes, pertencentes ao PT eram conhecedores de que o modelo de “bolsa” possibilitaria, como contrapartida da população, tida como beneficiária, a eterna gratidão, com a obrigação de votar nas eleições subsequentes para eleger os candidatos recomendados pelo comando petista, até que fosse alcançada a meta de governar o Brasil, estabelecida para o ano 2022, quando os seus idealizadores já teriam se fartado do poder e alguns já integrasse a classe rica brasileira. Tudo caminhava no rumo e da forma planejada. O Rei Lula venceu duas eleições e ainda elegeu, também por duas vezes, a sua sucessora, e já vislumbra a eleição de 2018 para completar o ciclo de poder que programara.
 
O prestígio de Lula e Companhia tornara-se tão gigantesco que a quase totalidade dos militantes na politica brasileira, inclusive antigos adversários, não pestanejavam em expressar o desejo de se tornarem aliados, desde que lhes fosse destinada alguma migalha de qualquer fonte governamental. Para tanto se tornou necessária à criação de mais Ministérios e cargo de relevo para contemplar os novos e “fieis” agregados do poder. A contrapartida orçamentaria era ignorada, porque para cobrir as despesas decorrentes, davam-se as “famosas pedaladas”, ou seja, tomavam-se empréstimos de bancos oficiais, mesmo diante da proibição legal. Com esse comportamento, a base aliada tornava-se cada vez mais forte. Tudo caminhava na busca do que fora planejado. Faltou, somente, obter da Policia Federal e do Ministério Público o compromisso de que não investigariam os assaltos conhecidos como mensalão, petrolão, etc. Entretanto o trabalho independente dessas nobres instituições permitiu identificar a podridão que balançou o edifício do poder petista e seus aliados e, ainda alertou o País sobre o engodo a que estava sendo submetido.
 
O modelo de bolsas, que consiste na distribuição de pequenos valores em espécie, para a população carente, com toda certeza, teria conotação de excelente programa, se no fundo não representasse uma disfarçada compra de voto para favorecer candidatos recomendados por Lula, como agradecimento pelas migalhas recebidas. Com base na sabedoria do poema de Zé Dantas torna-se fácil entender que a simples e isolada forma de distribuição de renda para a população pobre não representava um programa perfeito. Melhor seria implantar esse modelo como complemento de programas que, efetivamente atendessem as necessidades de todos os brasileiros, tais como: Um perfeito e digno modelo de saúde e educação, evitando-se a humilhação das intermináveis filas nos hospitais e a falta de vagas nas escolas; oferecimento de merenda escolar farta e de boa qualidade, para todos os alunos da rede publica; creches para abrigar os filhos das mulheres que trabalhassem fora do lar; asilos para acolher os idosos sem familiares com disponibilidade para tanto; transporte coletivo suficiente e barato; segurança pública; programa de habitação popular, porém em sintonia com os demais aqui elencados e, de uma forma muito especial, oportunidade de trabalho.
 
Tais programas, se bem executados, permitiriam ao personagem inspirador deste artigo, a certeza que a sua filosofia, expressa de forma poética, havia alcançado os anseios da população brasileira.
 
Como efeito, sabe-se que em decorrência do programa petista, ninguém morreu de vergonha, porém muitos estão viciados. Ainda há tempo.
José Ribamar Santos Vaz
Juiz aposentado do TJMA
ribamarvaz@hotmail.com


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