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20/05/2015 10h15
O que fazer com os aposentados?

Carlos Nina*
 
O Brasil não é só um país corroído pela corrupção escancarada, desenfreada, escandalosa e impiedosa. É um lugar onde os valores da moralidade e da decência não conseguem superar o acinte, o cinismo e a hipocrisia que transbordam das profundezas do Poder Público.
 
O abuso, o autoritarismo, a irresponsabilidade e a absoluta falta de compromisso com as finalidades do Poder Público são a marca do enriquecimento de seus agentes, em detrimento dos serviços que o Estado deveria prestar. A educação e a saúde públicas são cada vez piores; os transportes, inexistentes ou de péssima qualidade; as vias públicas servem apenas como sumidouro permanente e inesgotável de verbas públicas, sem haver uma sequer que resista ao menos a um inverno. As redes de energia elétrica, água e esgoto, onde as há, são precárias.
 
A origem de tudo isso é inequívoca: o desvio das verbas públicas. Antes tímido, esse desvio cresceu estimulado pela impunidade e atingiu patamares espetaculares, sucessivamente ultrapassados por outros, nunca antes neste País imaginados.
 
A intensidade desse processo de institucionalização da corrupção fez com que as pessoas recebessem com benevolência a notícia de alguém que admitiu ter recebido propina e se dispôs a devolver alguns dos milhões que foram parar em seus bolsos. Quanta grandeza e generosidade!
 
O dinheiro do contribuinte, que deveria financiar serviços à população, é surrupiado diuturnamente. Como nem todos devolverão o que roubaram, alguém tem de pagar a conta. Pior: tendo de aturar o desplante dos maiores beneficiários desse roubo. Insultando a inteligência e abusando da paciência dos brasileiros, dizem cinicamente que não sabem de nada!
 
E haja aumento de impostos e taxas. E redução de benefícios. Os mais visados, entretanto, são os aposentados. Já foram chamados de vagabundos por um presidente. Não são os aposentados os que fraudam a previdência social, mas serão eles que terão de pagar essa conta.
Como os aposentados não têm do que fazer greve, carecem de mecanismo de proteção para suas aposentadorias.
 
Em vez de dar atenção especial e prestar atendimento decente para os aposentados, que trabalharam durante a maior parte de suas vidas para construir a Nação, o Estado os relega a um patamar de última categoria, mesmo sendo justamente na idade da aposentadoria que as pessoas precisam de mais cuidados. Contudo, não é ao aposentado que são dados auxílio moradia, auxílio alimentação e outros benefícios, mas aos trabalhadores que estão na ativa, que os perdem ao se aposentarem.
 
É como se os aposentados não precisassem de comer, de morar, nem de cuidar da saúde. Aposentados são um fardo, um estorvo. Um ônus para o Estado e muitas vezes para a própria família, cujos valores são fruto dessa miséria moral na qual o País está mergulhado.
 
Os aposentados são só despesas. Ocupam as praças para falar mal do Governo; usufruem da energia elétrica jogando dama e dominó sob a iluminação dos postes em áreas públicas; gastam soros e balões de oxigênio nos hospitais e vacinas antigripais.
 
O que fazer com os aposentados? O Governo busca uma solução. Não será combatendo a corrupção, nem diminuindo a quantidade de ministérios ou acabando com a farra de cargos comissionados distribuídos para os companheiros. Muito menos deixando de financiar obras milionárias em países com governos igualmente corruptos, para onde vai e de onde sai o dinheiro suado dos brasileiros, lavado a jato para sustentar parlamentares, empreiteiros e partidos políticos que fazem do País um chiqueiro, sem cuja lama não sabem sobreviver.
 
Tomara que não se lembrem do que dizem ter sido feito em determinado Estado brasileiro. Para se livrarem dos mendigos, jogaram-nos no rio para que se afogassem. Queira Deus, nem da Solução Final, projeto com o qual Hitler pretendia exterminar os judeus.
 
Mas o caminho sinalizado no País não é menos cruel. Instiga ao suicídio. Essa parece ser a estratégia das maldades embutidas sob o falso nome de ajuste fiscal. Torturar os aposentados até a exaustão, submetê-los a uma situação cada vez mais humilhante e insustentável. Exauri-los até que optem pelo suicídio. O Governo pode até colaborar criando mais uma bolsa dessas com a qual engabela os eleitores: o auxílio suicídio.
 
Uma coisa é certa. O Estado não fará como Hitler, jogando os corpos em vala comum. O Estado doará um belo caixão. Superfaturado, evidentemente, por alguma funerária generosa, que contribuirá com milhões de dólares na campanha eleitoral dos companheiros. Graças aos lucros decorrentes da diferença entre o preço do ouro prometido nas alças do caixão e o do latão que tomará seu lugar; do jacarandá com parafusos de aço inox, também prometido, com o do compensado com tachinhas, que o substituirá; da venda dos túmulos de uso rotativo, vendidos como se perpétuos fossem para cada corpo de aposentado.
 
O problema serão os teimosos, como seu João, cidadão que está com 101 anos. Executado desde 1979, só depois de 20 anos de ajuizada soube da existência da ação, que lhe cobrava, em valores de 2012, R$ 912,24. Há quinze anos tenta limpar o seu nome. O Juiz de 1o grau julgou extinto o processo, pela incidência da prescrição. A União recorreu!!! Fazem-lhe falta os R$ 912,24. O caso ainda está no segundo grau esperando julgamento!!!
 
Aí já é o Judiciário dando sua contribuição à estratégia de exaurir o aposentado, testando sua esperança, sua confiança e sua longevidade.
Aposentados do Brasil, uni-vos!
 
*Advogado e jornalista. Membro do IAB.  
 


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