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07/10/2014 16h26
Carências do processo eleitoral

Carlos Nina
Juiz estadual aposentado
(carlos.nina@yahoo.com.br)
 

Os eleitores brasileiros devem ir hoje às urnas (o voto é obrigatório para maiores entre 18 e 70 anos) para eleger presidente da República, governadores dos Estados e do Distrito Federal, senadores, deputados federais e estaduais. São milhares de candidatos que poderiam ter dado ao País um exemplo de cidadania. O que prevaleceu foi uma demonstração inequívoca de que os mandatos almejados poderão ser úteis para tudo, menos para melhorar a vida da população.

O horário eleitoral interessou a dois tipos de ouvintes: os que buscavam diversão, ressentidos pela ausência de bons programas de humor, e os que queriam aguçar a indignação, comprovando, pessoalmente, as carências de qualificação e caráter reveladas na campanha.

Menos pelo descrédito nas propostas mirabolantes e sabidamente demagógicas e mais pela intensidade das acusações mútuas de corrupção, abusos e violações, os embates se caracterizaram pela desqualificação moral e referência a condutas criminosas. Sujos falando de mal lavados. Mas os eleitos estarão entre eles mesmos. E nenhum fará alguma coisa em benefício da população, senão ao custo de sacrificá-la, em proveito pessoal, de quem os financiou e dos grupelhos indispensáveis para inflar egos e alimentar vaidades.

Ainda que se quisesse acreditar que algum eleito fará alguma coisa pela população, como poderia isso ser possível se, para eleger-se, comprometeu-se com quem os financiou? Só os ignorantes acreditam que os candidatos gastaram apenas o que declararam à Justiça Eleitoral. Acreditar nesses números não afasta duas indagações elementares: 1) Por que alguém investe milhões de reais para ajudar um candidato? 2) Por que os candidatos concordam em gastar milhões para eleger-se?

Se os recursos gastos nas campanhas eleitorais fossem investidos na educação, teríamos eleitores mais conscientes. Mas isso não interessa a quem está no Poder. O que interessa é manter o eleitor na ignorância, dependente da caridade estatal, para que possa ser manipulado nas eleições. Difícil de entender é a conduta dos que, dizendo-se esclarecidos, apoiam tal situação e não conseguem enxergar dois cenários visíveis: a expansão de uma população mantida no assistencialismo e, consequentemente, os conflitos sociais que emergirão desse fenômeno. Isso além da péssima contribuição que está sendo dada para a formação política das crianças e dos jovens que presenciam esse desastre.

Nossa realidade não será mudada com eleições nessas circunstâncias. Os eleitos têm muitas dívidas para pagar e, naturalmente, quererão fazer seus próprios pés-de-meia. O que vai sobrar para beneficiar a população? Nada. Se nada fizerem já será uma vantagem, pois é quando fazem que a população paga mais caro. Primeiro, porque é no fazer que se concretiza o desvio das verbas públicas. Segundo, porque é com obras mal feitas, material e recursos de qualidade inferior aos contratados que o ciclo recomeça.

É essa realidade que produz a campanha que tivemos, que nos impõe os candidatos que temos, que forja os eleitores que somos. É merecimento mútuo. Os eleitores brasileiros merecem seus candidatos tanto quanto estes merecem os eleitores que têm, que se vangloriam de, à noite, visitar os compradores de votos, prometendo, a cada um, seu voto em troca de uma onça pintada, um mico-leão-dourado, uma arara, uma garça ou mesmo uma pobre tartaruga marinha, desde que tenham a sensação de estar enganando os candidatos, sem se darem conta de que estão, por eles, sendo aviltados.

As constatações do Papa Francisco em sua Evangelli Gaudium são pertinentes à realidade brasileira, até porque sua abordagem refere-se à miséria moral que se abate sobre o mundo. Disse o Papa: “Hoje tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco.” “O ser humano é considerado como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora.” “O mundo está dilacerado pelas guerras e a violência, ou ferido por um generalizado individualismo que divide os seres humanos e põe-nos uns contra os outros visando ao próprio bem-estar.”

Como nada é tão ruim que não possa piorar, entendo que, também, pode, algum dia, melhorar, ainda que o preço seja caro, como já pagou a sociedade brasileira, que, lamentavelmente, parece ter esquecido os idos de março de 64.

Conhecer a história brasileira, a Revolução Russa, a Revolução cultural da China, a Segunda Guerra Mundial e outros exemplos do preço que a população paga pela ambição de falsos profetas poderia ajudar o eleitor a decidir com clareza sobre o destino que seu voto dará ao País.

Que Deus tenha piedade do povo brasileiro!

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